terça-feira, 9 de abril de 2013

Esforço Reconhecido

Ela insistiu, teimou, discutiu e, sem dar ouvidos  à família e aos amigos, foi até o Lami "salvar" um Bonde! Isso mesmo, um bonde histórico, peça fundamental da memória da cidade, cujo triste destino - não fosse a atitude corajosa (insana, para alguns) da dona Kika, seria virar ferro velho. 

Zilka D´Ornelas Ponsi, ou simplesmente Kika, como é conhecida no seu Atelier do Bonde, é a heroína dessa história. Uma história que começou no ano de 1998, quando a aposentada e artista plástica autodidata resolveu comprar um bonde, onde funcionava uma Igreja Evangélica. O veículo (de 3m de largura por 13m de comprimento) tornou-se pequeno para a quantidade de fiéis, e o pastor não tinha mais como mantê-lo em seu terreno, pois pretendia construir ali um salão maior para exercer seus cultos religiosos.

O bonde foi transportado numa carreta do Bairro Lami à avenida Otto Niemeyer, acompanhado por guardas de transito da EPTC em motocicletas. Um alvoroço para os moradores da região, que se aglomeraram na calçada para assistir a chegada do bonde, derrubando o muro da pequena casa, onde passou a habitar. Kika, com recursos próprios, manteve o aluguel do terreno, consertou o muro, restaurou o bonde como pôde e construiu no espaço um simples ateliê de artes a fim de exercer seu hobby de pitora e artesã e para reunir amigos.

A iniciativa multiplicou-se, e em 2009 foi realizada a inauguração oficial do Atelier do Bonde, abrindo espaço para a visitação pública orientada (e previamente agendada) e para o desenvolvimento de atividades artísticas e culturais. A partir daí, iniciou-se uma agenda cultural variada com atividades ligadas às artes em geral, como artes visuais,  artesanato, fotografia, teatro, circo, música, dança, literatura e também para a conscientização ambiental, com o apoio da Prefeitura de Porto Alegre. Até um trapézio foi instalado em frente ao ateliê e do lado do bonde para que a trapezista Mima Ponsi (filha de Kika) treinasse e apresentasse suas performances artísticas.

Já no ano de 2010, ocorreu a Assembléia de Fundação da Associação Histórica, Artística e Cultural do Atelier do Bonde (HACAB), em cuja missão estão a conscientização histórica e sócio-ambiental, e a difusão e integração artístico-cultural, com enfoque na cultura, educação, cidadania e sustentabilidade socio-ambiental. Atualmente, a HACAB, em fase de registro, desenvolve projetos em parceria com ONGs e demais entidades, participando de editais do governo.

E então, depois de tudo isso, dá para dizer que Kika é só uma simples aposentada que cultiva memórias, ou uma personalidade de visão ampla e ilimitada prestes a revolucionar o panorama artístico e cultural da cidade?

OBS: A matéria da Zero Hora contém um pequeno equívoco, o bonde foi comprado por Zilka Ponsi, aposentada, e não por Glaucia Scherer, Artista Plástica colaboradora do Atelier do Bonde.

domingo, 7 de abril de 2013

Bate-papo Literário




Na tarde de sábado do dia 6 de abril de 2013, ao ser realizado o "Segundo Encontro Poético da UBT/RS", o Atelier do Bonde recebeu o bibliotecário João de Souza Machado para palestrar sobre como conservar, consertar, cuidar e guardar livros. João dos Livros, como é conhecido em sua acolhedora "Garagem dos Livros" (livraria situada no Centro Histórico de Porto Alegre, na Rua General Salustiano, 214), é feirante há mais de dez anos na Usina do Gasômetro, onde comercializa exemplares raros e edições "muy" antigas da literatura brasileira e internacional. 

João é, antes de tudo, um historiador autodidata e um exímio contador de histórias, algumas tiradas de livros; outras, parte da sua bagagem existencial. E foi contando histórias que iniciou aquela que seria uma simples palestra sobre como cuidar dos livros e acabou virando um bate-papo informal, mas deveras erudito, sobre literatura. Não há dúvidas que o bonde e o próprio local o inspirou, pois, ao bater os olhos num velho acordeon abandonado na lareira do ateliê, lembrou um romântico documentário argentino chamado (se bem recordo) "Lo Ultimo Bandolin" sobre um instrumento que não funcionava e uma bandolinista que insistia em tocá-lo. E, assim, seguiu narrando histórias, citando trechos inteiros de livros, poesias e escritores. 

Talvez por estar diante de figuras femininas - poetas ou escritoras, maioria no recinto - lembrou de exaltar a contribuição fundamental das "sete mulheres", responsáveis pelos rumos de sua vida, em especial pela paixão dedicada aos livros. Sua mãe, que lhe fez estudar, e a esposa, com quem construiu uma grande e querida família, foram a base essencial da transformação de um garoto simples a um sábio homem das letras. Dos grupos de estudos literários dos quais participou - algo do tipo "Sociedade dos Poetas Mortos" - aos amigos livreiros que guardavam, comercializavam, ou mesmo emprestavam grandes relíquias da literatura, recebeu verdadeiras dádivas de conhecimento científico, filosófico, histórico e espiritual. 

Belas histórias de vida e, quem sabe, enredo de um livro de memórias chegaram ao fim para dar lugar às lições sobre o cuidado e a restauração de livros. "O livro deve ser tratado como um bebê, com carinho e cuidado" - ensinou João. Deve ser acondicionado em sacos plásticos, longe da umidade, em locais arejados, limpos, mas, principalmente, deve ser sempre manuseado. O livro dura mais quanto mais for lido, folheado, passado de mão em mão. Livro parado junta traça, mofa, deteriora-se. Assim como o conhecimento, deve ser repassado de um leitor a outro, a fim de sobreviver com o tempo e perpetuar-se.

Um pouco mais de informações sobre como encapar e colar páginas foram sendo repassadas aos participantes e, já no finalzinho do encontro, com a barriga roncando (o tempo passou rapidamente, afinal), iniciou-se o pequeno coquetel, com direito a brindes e presentes. Um Buda confeccionado em gesso foi entregue ao João por Angela Ponsi, a qual recebeu de Flavio Steffani, presidente da UBT/RS, uma camiseta da ISLA. A escritora Lisete Johnson doou livros antigos à Garagem dos Livros e três livros infantis de sua autoria para a pequena Angelina de 2 aninhos, que esteve presente no local.

Para encerrar, alguns assuntos foram levantados: após debatida a pauta referente aos "Jogos Florais de 2013", com combinações acerca dos preparativos do evento, conversamos sobre os rumos do Centro Cultural na Zona Sul no antigo Fórum da Tristeza. Lisete ainda anunciou a edição do seu próximo livro em maio - esperamos que seja no Atelier do Bonde! E, na despedida, um último adeus ao Bonde e a promessa de continuarmos os encontros literários e poéticos nos próximos sábados de abril.